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terça-feira, 27 de abril de 2010

Paz, eu quero paz

Um homem comum, muito comum. Nome comum - José, Antônio, Manoel, João ou qualquer outro. Um nome, geralmente, faz um homem. E se isso também quer dizer posição social, ele era o próprio exemplo da máxima. Pouco mais que dois mínimos numa empresa que não dava perspectiva nenhuma de crescimento para o aluno que foi laureado e agora realizava atividades rotineiras.

Altura abaixo da média, físico franzino somado a uma barriguinha típica dos sedentários. Nada que chamasse atenção, tocava um violão desafinado, nunca foi destaque nos esportes, não era popular. Pouquíssimos amigos e amores não correspondidos.

Na sua solidão, ou mergulhava na piscina e ficava lá submerso e encolhido desfrutando o silêncio - uma antiga mania que trazia desde criança - ou passava horas repetindo no seu som "Feels So Good", um instrumental belíssimo que o trazia uma alegria entorpecente, quase tóxica. Um de seus simples sonhos era apreciar tal música sendo executada ao vivo.

O homem comum se sentia triste, impotente, vagando no tempo. Desesperado.

Mas um dia, nossa sorte muda. Ou deveria.

Cargo de gerência, rapaz! Um aumento, um destaque! Uma noite com a morena alta e 'grande' que venerava. Um jantar que ele comeu de tudo! Outra noite, sucesso na rodinha de violão no lual. O reconhecimento artístico foi encher sua agenda de novos números.

Sucesso profissional, mulheres, amigos. Tava bom demais para ser verdade. Mas É verdade, homem! Aproveita!

Faltava os sonhos, ou pelo menos um e os dias estariam perfeitos.

Era quinta de Jazz no bairro histórico. Atração principal: um trompetista. O show já ia sendo impecável, até que A MÚSICA. O som emocionado do trompete e o swing que a música apresentava enchenram o homem de paz, completa paz.

Saiu no seu carro pela Via Costeira. Seguia as estrelas, contemplava o céu e desfrutava a paz. Desceu pra praia. Será que a paz ia durar? Ele se sentia gente, não mais fantasma. Ele era visto, conhecido. Mas amanhã o sonho podia expulsá-lo.

Correu desesperado. Foi buscar a velha mania de criança, mas a piscina agora era o mar. Pulou, submergiu, se encolheu. Apreciou o silêncio e sentiu a paz. E viveu a paz. Afundou-se nela e nunca mais.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Fatal

- A senhora tem um tumor maligno. Começou no pulmão e agora...

Bla, bla, bla!! Diga logo qual o dia, caralho.

- Quanto tempo, doutor?

- Três meses. Consequência do cigarro! Tente parar e fazer...

Tente parar de transar por uma semana, imbecil. Vai ver como me sinto sem fumar.

Trêmula, sai da clínica, deixa o olhar se perder na avenida e tira da bolsa o seu companheiro de toda obra e hora desde os 13 anos: o cigarro.

Preciso dar! Preciso dar! Nããããão! Eu TENHO que dar!

- Táxi!!!

- Pra onde, senhora?

- Siga a BR até a saída da cidade.

Daqui pro fim da cidade são meus exatos três meses.

- Ali, ali! A esquerda, logo após o retorno!

- Aqui, moça?! Aqui?!

- Isso! Entra e não me pergunta mais nada até estacionar.

"Amor Fatal" piscava em vermelho neon. Parecia premeditado.

Carro parado. Porta aberta. Ar ligado! AGORA!

- Tira a roupa, cara!

- Moça, tem certeza?!

- Tira logo!

- Oh, assim, nem precisa pagar a viagem...

Dois corpos nus.

- Deita, velho.

Puxa o brinquedinho. Longo e frio.

- Moça, o que é isso? Pra que isso? Não, não...

- Eu preciso relaxar. Não vai me ajudar? Vira, posição fetal.

Nu eu vim, nu voltarei. Pra que esperar três meses?

E ela deu. Dois estouros secos. Vermelho. Silêncio.