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quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Give me a Break(fast)

tchonin-onin-onin-onin-onin-onin-onin...
tchonin-onin-onin-onin-onin-onin-onin...

"Isso, meu caro, é o som da bateria do seu carro descarregada"

Disse para si mesmo. Cabeça encostada no volante, pensou que seu dia ruim poderia terminar ruim daquele jeito, com ele esquecendo os faróis do carro ligados enquanto passa duas horas pagando contas.

Mão no bolso, pensa que talvez o outro dia fosse melhor para resolver aquilo. Já era tarde, seu corpo pedia cama, só.

"Se quiserem tentar roubar essa lata velha, podem tentar!"

Pensa, puto, e vai embora para casa de ônibus. Uma chuva fininha começa a cair.

"Merda! Dá um tempo!"

Um tempo; nada como um dia após o outro, né?

Ou não.

...

No outro dia, seu bom amigo o leva lá no canto onde ele deixou a lata velha. Foram fazer a velha chupeta. (Não entendam isso mal, meu caros leitores, já que a vida desse nosso personagem já está bem difícil).

Ao chegarem lá, deparam com uma família de mendigos dormindo dentro do carro.

"Puta merda! Deixei o carro aberto!"

Lembra nosso (azarado) personagem. Quando chega lá, o casal ainda dorme, mas o filho pequeno está muito bem sentado no banco de trás. Quando vê o homem se aproximando, abre um sorriso e diz:

"Oi, moço"

"Eh... oi?"

Responde nosso (desconcertado) personagem.

"Tem pão aí?"

"Pão?"

"É, pão"

Ele olha intrigado pra o menino. Intrigado. Pensativo. Pesaroso. Penoso. Vira de costas, entra no carro do amigo e vai embora. Deixa a pobre família dormindo no carro.

...

Um senhor e uma senhora acordam; sujos, fedorentos, sonolentos, famintos. Encontram, encostado no painel do carro onde dormiam, (des)confortáveis, um saco com pão, queijo, salame, uma garrafinha de café e alguns copos descartáveis. Intrigados, olham para o banco de trás do carro e vêem seu menino, feliz, comendo pão com queijo e balançando os pés.

"Quem dexô isso aqui, minino?!"

O menino sorriu, alegre, e respondeu

"Foi o moço, pai. Acho que era anjo"

...

Nada como um dia após o outro.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Diálogos da cachaça

Andando pelo corpo da Cidade das Desgraças, vai embora Zé Qualquer, anda pelas ruas Criatura Zé, sem saber, exatamente o que quer. Ele está acompanhado de sua eterna companheira, mãe de todas as horas, pau pra toda obra: a excelentíssima senhora Cachaça dos Perdidos. Sempre de sorriso no rosto, bom humor e quase nenhum senso de juízo e realidade na cabeça, vagueia por ali e por aqui.
De porre por aqui, ele encontra uma moça travestida de mulher, cheia de pinturas e rostos numa viela escura de Desgraças. Ela, encostada num canto, chora e desfaz todas as suas máscaras noturnas básicas e complicadas.
Comovido, pois os bêbados como Zé Qualquer sentem a dor da criatura alheia, vem ao lado da moça e pergunta:
- Pppu que a moci munita chora?
Ela, machucada pelos Fulanos da Noite, já não enxerga a possível compaixão de nosso trêbado personagem e responde de forma quase cruel:
- Num sei, homi. Choro porque chorar aqui nessa Desgraças é a coisa mais normal pra se fazer. Só não é mais do que beber - conclui ela, alfinetando o quase cidadão na sua frente.
Quando ela percebe o modo como havia falado com o pobre Criatura, com toques de mãos e carícias típicas de sua personagem, tenta se desculpar. Qualquer só sorri, beija a testa da menina mulher e diz, espalhando aquele aroma [a]típico pelo lugar:
- Cê tá errrad muça! Chorar é mai nomal sim, pusque cachaça - beija sua companheira - é a láguima dos perdido.
Toma um trago e segue seu caminho.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Paz, eu quero paz

Um homem comum, muito comum. Nome comum - José, Antônio, Manoel, João ou qualquer outro. Um nome, geralmente, faz um homem. E se isso também quer dizer posição social, ele era o próprio exemplo da máxima. Pouco mais que dois mínimos numa empresa que não dava perspectiva nenhuma de crescimento para o aluno que foi laureado e agora realizava atividades rotineiras.

Altura abaixo da média, físico franzino somado a uma barriguinha típica dos sedentários. Nada que chamasse atenção, tocava um violão desafinado, nunca foi destaque nos esportes, não era popular. Pouquíssimos amigos e amores não correspondidos.

Na sua solidão, ou mergulhava na piscina e ficava lá submerso e encolhido desfrutando o silêncio - uma antiga mania que trazia desde criança - ou passava horas repetindo no seu som "Feels So Good", um instrumental belíssimo que o trazia uma alegria entorpecente, quase tóxica. Um de seus simples sonhos era apreciar tal música sendo executada ao vivo.

O homem comum se sentia triste, impotente, vagando no tempo. Desesperado.

Mas um dia, nossa sorte muda. Ou deveria.

Cargo de gerência, rapaz! Um aumento, um destaque! Uma noite com a morena alta e 'grande' que venerava. Um jantar que ele comeu de tudo! Outra noite, sucesso na rodinha de violão no lual. O reconhecimento artístico foi encher sua agenda de novos números.

Sucesso profissional, mulheres, amigos. Tava bom demais para ser verdade. Mas É verdade, homem! Aproveita!

Faltava os sonhos, ou pelo menos um e os dias estariam perfeitos.

Era quinta de Jazz no bairro histórico. Atração principal: um trompetista. O show já ia sendo impecável, até que A MÚSICA. O som emocionado do trompete e o swing que a música apresentava enchenram o homem de paz, completa paz.

Saiu no seu carro pela Via Costeira. Seguia as estrelas, contemplava o céu e desfrutava a paz. Desceu pra praia. Será que a paz ia durar? Ele se sentia gente, não mais fantasma. Ele era visto, conhecido. Mas amanhã o sonho podia expulsá-lo.

Correu desesperado. Foi buscar a velha mania de criança, mas a piscina agora era o mar. Pulou, submergiu, se encolheu. Apreciou o silêncio e sentiu a paz. E viveu a paz. Afundou-se nela e nunca mais.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Tito e Pedrão

"Precisa-se de voluntários (homens) para auxiliar na construção do Congresso Regional de Enfermagem. Interessados procurar o C.A de enfermagem para maiores informações."

- Uia! Parece que esse aviso foi feito pra gente, Tito! - dizia Pedrão, com aquele seu sorriso de milhões de dentes na cara.

- Não sei... não sei...

- A gente descobre.

Lá vão os dois, atrás de "maiores informações".

O que impulsiona os homens atrás de tantos rabos de saia Tito não sabia; ou talvez fingisse não saber. Pedrão não se importava com isso; porque pensar sobre o objetivo de sua vida? A caça? É coisa demais.

- Bem... nós precisamos de homens para ajudar na organização do espaço físico de onde será o Congresso e depois os remanejaremos para equipes de apoio. Que vocês acham?

Aquela presidente de C.A era um pedaço de mal caminho, pensava Pedrão. Ai, meu Deus... trabalho extra, pensava Tito.

- Estamos dentro! - Pedrão

- Estamos? - Tito

- Sim, estamos.

E naquela noite, Tito não conseguiu dormir; suas costas doíam de tanto peso que carregara, mas Pedrão exultava de alegria na cama, pensando nos três dias de sacanagem que o esperavam; afastou um pouco a presidente do C.A de enfermagem, que ocupava muito espaço no colchão e foir dormir ofegante e feliz.

- Bem... Pedrão, você fica na equipe de recepção - a presidente deu uma piscadinha para ele, que retribuiu - e você Tito... bem... você vai pra cozinha. Pedrão disse que você lava pratos muito bem.

- Ótimo! - Pedrão não podia esconder a alegria de pensar no futuro próximo, onde estaria em contato com muitas e muitas mulheres.

Ele era o tipo de cara caçador. Sorriso de milhões de dentes, matador. Lábia venenosa, palavras penetrantes. Você não resiste a ele, mulher.

- Ótimo... - Pobre Tito.

Mas, afinal, ele pensou: o que eu, um cara tímido pra caralho, sem atributos chamativos, faria numa equipe de frente? Vamos a la cocina.

No outro dia todas aquelas caravanas de outros Estados chegavam, todas as moças (e aqueles poucos rapazes que fazem o curso) se acomodavam e o trabalho começava. Pedrão fazia a alegria da mulherada em seu tempo livre; e Tito ajudava a fazer sua comida. Todas reparavam em Pedrão; não tem como não reparar nele; elas não reparavam em Tito. A vida é assim mesmo: as vezes, ela não guarda nada de especial para alguns: nem um sorteio, nem um romance, nem um sexo casual e selvagem que será lembrado pelo resto dos seus dias.

E enquanto Tito talvez tinha esses pensamentos e Pedrão relaxava numa mesa de refeitório cheia de mulheres, a fila do jantar andava e um olhar, somente um olhar penetrante e lincético, olhava para o cara tímido que servia o arroz nos pratos. O olhar penetrou lá dentro, esquadrinhou, escolheu.

Pedrão era o primeiro a sair do refeitório; recepcionar e indicar era sua função principal: divertí-las em todos os momentos a secundária. Tito era o último, fadado a limpar tudo o que sobrava; ele até já se acostumara com aquela calma solidão. De repente, batidas na porta. Tito abre a porta, estranhando, e uma moça com os olhos mais negros e penetrantes que ele já vira olha direto pra ele e fala:

- Perdi meu pen-drive; acho que o deixei aqui.

"Sotaque carioca. Engraçadinho" - Tito Pensou.

- Ok, moça. Fica a vontade. Eu to acabando de limpar por aqui, enquanto isso você vai procurando.

E ela ficou lá, procurando seu pen-drive. Tito limpava, e ela se agachando pelos bancos; poses altamente insinuadoras. Será que... não não! Tito estava imaginando coisas, pra variar.

- Desisto, acho que deixei em outro canto - ela disse, sentando sobre uma mesa e cruzando um incrível par de coxas que ele realmente já tinha reparado.

- A gente anuncia no alto-falante amanhã.

- Você já vai fechar? Já acabou de limpar por aqui?

- Não não.

- Ah... posso ficar aqui, conversando com você? Não tem nada pra fazer onde eu to lá...

Tito naturalmente sabia que era mentira. Pois todas as noites do congresso eram regadas a festas, bebidas e danças; organizadas pela diretoria ou não. Mas, ele foi complacente.

Ele estava até gostando da companhia.

Quando acabou de limpar, ele sentou do seu lado, jogou um pouco de conversa fora. Ela jogou o corpo. Ela atacou; ela era uma caçadora, uma lince.

E ela descobriu um Tito diferente, enquanto rolavam pelo chão do refeitório fechado a chave. Não só um amante extremamente desejável; mas, numa conversa divertida e regada a algum álcool depois do sexo ela descobriu um artista, um trabalhador, um aventureiro viajante nas poucas horas vagas com o pouco dinheiro que tinha.

E eles se jogaram um pouco mais. Se "amaram" um pouco mais. Até cada um seguir seu caminho, após a porta do refeitório se fechar pelo lado de fora.

Meio-dia, Tito chega para o seu turno. Pedrão já está lá, olhos de ressaca, sorriso de felicidade e gozo na cara junto com aquela malandragem impecável.

Tito coloca seu avental e começa seu turno. Enquanto trabalha, sente um ar estranho ao seu redor: como se centenas de olhos o olhassem. Mulheres agradecem seu trabalho; mãos passam telefones enquanto pegam suavemente na sua na entrega de bandeijas. A fila parece dobrar de tamanho na hora das repetições. Essa mulherada enlouqueceu.

Pedrão ria da situação; pois Pedrão sabia a resposta de tudo:

Sim, Tito, a mulherada enlouqueceu;
por você.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Azul Maré

Ele não costumava mudar de perfume. Sempre achou cheiro algo fundamental, e tinha medo de mudar e errar na novidade, algo que não provocasse e que não fosse marcante. Melhor dizendo, ele até mudava, mas só entre o perfume Vermelho e o Azul. Passava por uma fase Vermelha há muito tempo. A última vez que ele usou o Azul foi quando a menina pequena de sorriso branquinho moradora da beira do mar havia ido embora.

No último sábado, o frasco de Vermelho borrifou o que restava. Então, a decisão foi tomada: amanhã é dia de Azul. Não que o Azul seja melhor ou pior que o Vermelho, mas tava na hora de mudar de cheiro, sabor, sonhos, atitudes e até fazer a barba. Já vai fazer três anos.

Existem coisas que mudam, mas também há aquelas que não mudam nunca. Pior quando a gente acha que mudou.

De perfume novo e rotina nova, ele vai pegar sua irmã na escola. Um cara família, de fato. Mas a irmã não chegava. Mulheres sempre demoram.

SURPRESA! Um menina pequena de sorriso branquinho ali longe, e chegando perto. Vinha como uma onda chegando na praia. Ela mora na beira do mar. A onda quebrou:

- Surpresa boa! Fazendo o que por aqui?

- Vim pegar minha irmã. - disse o cara do perfume, escolhendo bem as palavras.

- Ah... Tem feito o que?

- Rotina de sempre: faculdade, estágio, espanhol e desespero de fim de curso. Coisas chatas. Só isso!

- Sempre ocupaaadíííssimo! Ah, coisa chata é vida de cursinho.

- Mas passa já! Pouquinho de paciência é bom pra todo mundo. Não que eu seja um bom exemplo disso.

É agora que a maré vira. A pequena dá um caldo no cara:

- Por falar em paciência, quando a gente senta pra conversar com calma?

Ele submergiu, alguns segundos de apneia, e furou a onda:

- Sexta? 15h?

Calmaria.

- Sexta. 15h!

É paciência foi preciso pra esperar a semana quase secular. Tem como 100 anos em uma semana? Pois acredite. Foi assim.

E lá vem o mar de longe. A maré subiu um pouco atrasada; meia hora, aproximadamente. Mulheres demoram demais. E ele doido pra dar um mergulho.

- Ahhh, desculpa! Esperou muito tempo?

- Faz quase três anos. - suspirou o mergulhador.

Pior é quando a gente acha que mudou. Tudo é sempre igual.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

A Praga

Logo nasceu, escolheu o peito esquerdo; peito murcho de sua mãe.

"Esse já sabe o que é ruim"

Brincaram sem saber que as brincadeiras têm um fundo de verdade.

Teve a pior escola, a faculdade mais fraca, o emprego mais furreca, a mulher mais "rim". No dia de sua morte, choveu em um dia 80% do previsto para chover em um mês na cidade; inundação.

Todos correm para a torre da igreja. O caixão do homenzinho sai pelas portas arrancadas sendo levado pelas águas.

Indignado, seu filho mais velho comenta:

"Até o dia que papai escolhe pra morrer é podre"

O mais novo:

"Podre é saber que decidimos enterrá-lo no pior dia"

A dúvida, então, assola aqueles corações: a praga passa por sangue?

A moça do meio chega e acaba com a questão:

"Dia podre? Pior dia? Vocês não entenderam que o céu só chora por papai?"

Ela passa suas mãos na cabeça dos garotos. As mulheres têm esse incrível poder de fazer os homens se acalmarem nas horas mais tensas;

e as águas levam o caixão do pobre homem.

A cidade chora.

domingo, 17 de janeiro de 2010

As Origens (ou a Ruiva do Busão)

- Putameda...

Lá estava ele, olhando pra frente, vidro rachado, cabeça sangrando, de cara no muro. "Isso que dá tentar livrar a vida dos outros com péssimas opções", ele pensa. Seu último pensamento antes de tudo escurecer.

Tudo branco, lençol branco, pessoas de branco. Hospital. Ele se pergunta o que aconteceu, lembra do acidente, percebe a presença de alguém querida no quarto, sua mãe, e pergunta se o [maldito] pedestre está bem e fica aliviado com a resposta. Dois dias depois ele sai, feliz, serelepe, pimpão, pronto pra outra (que espera não aconteça); até perceber: onde está o seu carro querido?

- Ele vai ficar um mês marromeno, chapa.

"Grande", ele pensa. Volta pra casa, desconsolado. Pega a velha linha 3052 - Areia Vermelha/Marrocos , desconsolado. Vê aquela ruiva linda no banco ao lado, descon... não! Não! Nada de desconsolo! Seu instinto macho-alfa está lhe chamando para aquela caçada. Ele pula um lugar, e quando se prepara, ela puxa um livro velho. Ele olha, olha, olha. Perde a coragem. Livros o intimidam; desde criança.

Seu mundo está nos números, nas contas. Nada de palavras.

Ele é um adolescente. Acorda 5:30 da matina pra tocar a vida e pensa que acordaria uma hora mais tarde se estivesse com carro querido. Pensa que a vida devia ser uma música de Roberto Carlos: enquanto seu Cadillac está na oficina, ele devia ter o calhambeque, se apaixonar pelo calhambeque, viver o calhambeque. Mas a vida não é música, apesar da recíproca não ser verdadeira.

18:30 ele está voltando quebrado do trabalho. Cochila. Acorda. Cochila. Acorda. Cochila; acorda e vê: a ruiva lá de novo, agora no banco da frente. Ele vai, se aproxima, se aproxima... e percebe: lá está o maldito livro. Ele trava. Ele não gosta de livros: ele odeia livros.

2 x 0 para o livro. A ruiva é o prêmio.

Mas se passa uma semana, e nada dele vencer o livro. Duas. Três. Ele travou de vez. Não que ele antes daquela ruiva fosse o tal macho-alfa; ele não era. Tinha seus assomos, mas esses não venciam na maioria das vezes ante seus medos. Os livros eram um deles.

Ele perdeu. O carro estava pronto, e ele iria buscá-lo.

5:30 da manhã. O último dia dessa rotina antiga. O 5230, linha do sentido contrário o estava esperando, só que dessa vez, de manhãzinha o ar estava diferente. Ele esqueceu que era feriado, já quando estava no ônibus. Por isso aquele vazio, aquele ar estranho para um ônibus de periferia da capital. Só que, lá no meio, banco alto, estava ela... e o seu livro. Chapelão, canga, biquini: praia. Ele nem se anima mais (mente para si mesmo), vai andando, andando, andan... pimba! Um tombo! Uma mão no livro, um livro no ar, uma cara no chão.

- Cê tá bem?

- To-to-to! - machos-alfa sentem vergonha?

- Que bom!

Ela vai em direção ao livro, vai apanhá-lo... pulo do gato! Numa agilidade que não era a dele, ele pega o [maldito] livro antes dela; e ainda pega-o fechado. Ela agradece, sorri. Instintos "ON".

Ao lado dela:

- Tá indo pra praia?

- To sim; areia vermelha.

- Coincidência, tava indo pra lá!

- Pra praia? Com essa roupa?

- Não... pro bairro... mas, bem que eu podia dar uma passada na praia, tomar uma água de coco... se você me acompanhasse.

Sorri; milhões dentes. Sorri; os dentes pequeninos mais lindos do mundo.

- Pode ser.

Um dia de praia, uma água de coco, as boas e ótimas conversas que se poderiam ter tido se não fosse a existência daquele livro [maldito]. Mas, tudo acaba, o dia também. Ele vai pra casa, a ruiva desce no ponto dela, mas deu o telefone.

Ele desce em casa, o 3052 faz a curva. Um sorriso. Janta. Um sorriso. TV. Um sorriso. Cama.

E, antes de dormir: "Putameda! Esqueci meu carro!".

Ninguém pode negar o poder mágico que os coletivos têm.



quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Uma rapidinha (ou "Amor a Primeira Transa")

Casório no agreste, em uma cidade pequenina. Meia hora de atraso - se é que se pode chamar tal momento de atraso, afinal faz parte da festa ver o noivo suar. Duas pingas pra acalmar. Menino querendo doce. Choro de mãe. Padrinhos nervosos. Um casal se olha. Burburinho, e logo o silêncio. A noiva chega. Correria. Um casal se olha. Todos em seus lugares, levantam-se. Um casal sai.

Noivos caminham pro altar. O casal corre para o banco traseiro da kombi. O padre saúda a igreja. As bocas se saúdam. Nervosismo e aperto no peito dos noivos. Aperto de corpos entre o casal. Borboletas no estômago dos noivos. Cabeçadas entre as coxas do casal. Choro e suspiro na igreja. Gemidos e sussuros na kombi. Selando o amor. Melando o calção.


- Que fale agora ou cala-se para...

- Nós também queremos casar!

S-u-r-p-r-e-s-a geral! Satisfação e prazer em dupla! Era só isso que importava. Loucura?

- Que sejam felizes para sempre!

Quanto dura o para sempre?

Um casal, amor. E o outro? Amor, também. Por que não?

- Vamos dar mais uma?

Que fale agora ou case-se para sempre.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Todo Tempo do Mundo

Não sabia fazer feliz a longo prazo. E essa era sua sina.

Quando lhe falou suas estórias, e quantas o deixaram, ela não lhe falou nada. Olhou nos seus olhos, como quem o descobria, lhe abraçou e disse "Tudo bem"; e se beijaram naquela saleta com cheiro de infância.

Ele nunca queria entender o que estava acontecendo. Vivia sempre no instantâneo, para si, e de ajudar os outros a recordar; de câmera na mão, registrava tudo dos outros, e nada de si. Pois era instantâneo. Suas histórias não se perdiam em livros escritos para a posteridade; mas se aqueciam nos ouvidos de quem queria ouví-las. E ela queria. E ele contava, com seu jeito de garoto malandro que não negava que era tal.

Ela queria tudo e adorava todos os momentos, como quem sempre guarda uma lembrança. Era o motivo da fotografia, a modelo, a paisagem. Também pudera: era um mulherão digna de ser registrada. Já ia bem com seus vinte e poucos; não tinha tudo na vida, mas tinha sorriso de quem pode conseguir tudo. Era assim, daquelas que adoram não demonstrar seu stress, olheiras e noites mal durmidas, mostrando sempre um sorriso na cara; pra ele.

Se conheceram para lá de lá e foram aqui os dias de expedientes mal cumpridos no trabalho dele, risos bestas dela e histórias que não acabavam mais dos dois.

Então, ela pegou o avião sem avisar.

E ele ficou a tirar fotos do céu, como quem quer registrar uma eternidade.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Entre livros e ilusões

[ Baseado em fardos (sur)reais ]

Ele se espriguiçava levando as mãos a nuca. Depois levantando os dois braços. Depois baixava o esquerdo e coçava a nuca, mantendo o direito levantado - o braço a ser mantido variava. E bocejava exageradamente pra finalizar seu ritual. Coça os olhos com um pouco de sono - já estava na biblioteca por algumas horas sem desgrudar os olhos da leitura. Olha para o nada e antes que baixe a cabeça por completo numa posição confortável para retornar ao seu "banquete", ele a viu subindo as escadas. Aquele mesmo cabelo castanho claro ondulado moldando o pequeno rosto branco decorado com dois olhos inquisitores sobre um pequeno nariz empinado próximo a pequna boca rosada - como se fosse um pequeno golpe de pincel finalizando a obra.

O pequeno corpo branco e macio - digo pequeno em altura, porque era um corpo largo, mas não gordo, era gostoso - passou por ele rápido, pisando o chão bem forte e negando a existência daquele corpo sentado bem próximo. Dobrou a esquerda e se perdeu entre as estantes de Literatura. Ele ficou louco, não a via desde Dezembro e já era quase Carnaval. Ele era facinado em olhar pra ela, nunca havia dado um "oi" sequer, mas se contentava em olhar, talvez algo a mais estragasse o encanto. Mas ele tomou coragem - nem tanta assim - e foi em direção aos livros de Literatura. Foi ao meio do corredo - ela estava no início - fingia procurar livros e foi se aproximando despreocupadamente. Então, disparou:

- Você cursa letras, né? - ele perguntou hesitante.

- Sim. - ela respondeu indiferente.

- Indica um bom livro?

- De que você gosta? - ela nem olhava pra ele.

- Dos que não me deixem parar de ler.

- Talvez eu não possa lhe ajudar. - ela disse num tom de fim de conversa.

Ele percebeu e retomou.

- Não? 

- Eu preciso saber do seu gosto. - ela respondeu impaciente, olhando pra ele e franzindo a testa.

- Pedi uma indicação, então confie no seu gosto. - falando firme.

- Eu confio. E ele me diz que eu não gosto de você. - quase mutilando com os olhos.

- É? Vejo que somos opostos, então. - um tom descontraído na voz.

- É? - voz indiferente, despreocupada procurando seus livros.

- Sim, eu gosto de você. Idiotamente. - lançando um olhar dissimulado.

- Olhe... Já disse que não posso lhe ajudar.

- Tá, já me contenta ler você.

- Eu sou uma nota. Você tem dez segundos...

Ela virou as costas e saiu. Ele manteve o seu sorriso de escárnio