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terça-feira, 6 de julho de 2010

Diálogos da cachaça

Andando pelo corpo da Cidade das Desgraças, vai embora Zé Qualquer, anda pelas ruas Criatura Zé, sem saber, exatamente o que quer. Ele está acompanhado de sua eterna companheira, mãe de todas as horas, pau pra toda obra: a excelentíssima senhora Cachaça dos Perdidos. Sempre de sorriso no rosto, bom humor e quase nenhum senso de juízo e realidade na cabeça, vagueia por ali e por aqui.
De porre por aqui, ele encontra uma moça travestida de mulher, cheia de pinturas e rostos numa viela escura de Desgraças. Ela, encostada num canto, chora e desfaz todas as suas máscaras noturnas básicas e complicadas.
Comovido, pois os bêbados como Zé Qualquer sentem a dor da criatura alheia, vem ao lado da moça e pergunta:
- Pppu que a moci munita chora?
Ela, machucada pelos Fulanos da Noite, já não enxerga a possível compaixão de nosso trêbado personagem e responde de forma quase cruel:
- Num sei, homi. Choro porque chorar aqui nessa Desgraças é a coisa mais normal pra se fazer. Só não é mais do que beber - conclui ela, alfinetando o quase cidadão na sua frente.
Quando ela percebe o modo como havia falado com o pobre Criatura, com toques de mãos e carícias típicas de sua personagem, tenta se desculpar. Qualquer só sorri, beija a testa da menina mulher e diz, espalhando aquele aroma [a]típico pelo lugar:
- Cê tá errrad muça! Chorar é mai nomal sim, pusque cachaça - beija sua companheira - é a láguima dos perdido.
Toma um trago e segue seu caminho.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Paz, eu quero paz

Um homem comum, muito comum. Nome comum - José, Antônio, Manoel, João ou qualquer outro. Um nome, geralmente, faz um homem. E se isso também quer dizer posição social, ele era o próprio exemplo da máxima. Pouco mais que dois mínimos numa empresa que não dava perspectiva nenhuma de crescimento para o aluno que foi laureado e agora realizava atividades rotineiras.

Altura abaixo da média, físico franzino somado a uma barriguinha típica dos sedentários. Nada que chamasse atenção, tocava um violão desafinado, nunca foi destaque nos esportes, não era popular. Pouquíssimos amigos e amores não correspondidos.

Na sua solidão, ou mergulhava na piscina e ficava lá submerso e encolhido desfrutando o silêncio - uma antiga mania que trazia desde criança - ou passava horas repetindo no seu som "Feels So Good", um instrumental belíssimo que o trazia uma alegria entorpecente, quase tóxica. Um de seus simples sonhos era apreciar tal música sendo executada ao vivo.

O homem comum se sentia triste, impotente, vagando no tempo. Desesperado.

Mas um dia, nossa sorte muda. Ou deveria.

Cargo de gerência, rapaz! Um aumento, um destaque! Uma noite com a morena alta e 'grande' que venerava. Um jantar que ele comeu de tudo! Outra noite, sucesso na rodinha de violão no lual. O reconhecimento artístico foi encher sua agenda de novos números.

Sucesso profissional, mulheres, amigos. Tava bom demais para ser verdade. Mas É verdade, homem! Aproveita!

Faltava os sonhos, ou pelo menos um e os dias estariam perfeitos.

Era quinta de Jazz no bairro histórico. Atração principal: um trompetista. O show já ia sendo impecável, até que A MÚSICA. O som emocionado do trompete e o swing que a música apresentava enchenram o homem de paz, completa paz.

Saiu no seu carro pela Via Costeira. Seguia as estrelas, contemplava o céu e desfrutava a paz. Desceu pra praia. Será que a paz ia durar? Ele se sentia gente, não mais fantasma. Ele era visto, conhecido. Mas amanhã o sonho podia expulsá-lo.

Correu desesperado. Foi buscar a velha mania de criança, mas a piscina agora era o mar. Pulou, submergiu, se encolheu. Apreciou o silêncio e sentiu a paz. E viveu a paz. Afundou-se nela e nunca mais.