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quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Give me a Break(fast)

tchonin-onin-onin-onin-onin-onin-onin...
tchonin-onin-onin-onin-onin-onin-onin...

"Isso, meu caro, é o som da bateria do seu carro descarregada"

Disse para si mesmo. Cabeça encostada no volante, pensou que seu dia ruim poderia terminar ruim daquele jeito, com ele esquecendo os faróis do carro ligados enquanto passa duas horas pagando contas.

Mão no bolso, pensa que talvez o outro dia fosse melhor para resolver aquilo. Já era tarde, seu corpo pedia cama, só.

"Se quiserem tentar roubar essa lata velha, podem tentar!"

Pensa, puto, e vai embora para casa de ônibus. Uma chuva fininha começa a cair.

"Merda! Dá um tempo!"

Um tempo; nada como um dia após o outro, né?

Ou não.

...

No outro dia, seu bom amigo o leva lá no canto onde ele deixou a lata velha. Foram fazer a velha chupeta. (Não entendam isso mal, meu caros leitores, já que a vida desse nosso personagem já está bem difícil).

Ao chegarem lá, deparam com uma família de mendigos dormindo dentro do carro.

"Puta merda! Deixei o carro aberto!"

Lembra nosso (azarado) personagem. Quando chega lá, o casal ainda dorme, mas o filho pequeno está muito bem sentado no banco de trás. Quando vê o homem se aproximando, abre um sorriso e diz:

"Oi, moço"

"Eh... oi?"

Responde nosso (desconcertado) personagem.

"Tem pão aí?"

"Pão?"

"É, pão"

Ele olha intrigado pra o menino. Intrigado. Pensativo. Pesaroso. Penoso. Vira de costas, entra no carro do amigo e vai embora. Deixa a pobre família dormindo no carro.

...

Um senhor e uma senhora acordam; sujos, fedorentos, sonolentos, famintos. Encontram, encostado no painel do carro onde dormiam, (des)confortáveis, um saco com pão, queijo, salame, uma garrafinha de café e alguns copos descartáveis. Intrigados, olham para o banco de trás do carro e vêem seu menino, feliz, comendo pão com queijo e balançando os pés.

"Quem dexô isso aqui, minino?!"

O menino sorriu, alegre, e respondeu

"Foi o moço, pai. Acho que era anjo"

...

Nada como um dia após o outro.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Diálogos da cachaça

Andando pelo corpo da Cidade das Desgraças, vai embora Zé Qualquer, anda pelas ruas Criatura Zé, sem saber, exatamente o que quer. Ele está acompanhado de sua eterna companheira, mãe de todas as horas, pau pra toda obra: a excelentíssima senhora Cachaça dos Perdidos. Sempre de sorriso no rosto, bom humor e quase nenhum senso de juízo e realidade na cabeça, vagueia por ali e por aqui.
De porre por aqui, ele encontra uma moça travestida de mulher, cheia de pinturas e rostos numa viela escura de Desgraças. Ela, encostada num canto, chora e desfaz todas as suas máscaras noturnas básicas e complicadas.
Comovido, pois os bêbados como Zé Qualquer sentem a dor da criatura alheia, vem ao lado da moça e pergunta:
- Pppu que a moci munita chora?
Ela, machucada pelos Fulanos da Noite, já não enxerga a possível compaixão de nosso trêbado personagem e responde de forma quase cruel:
- Num sei, homi. Choro porque chorar aqui nessa Desgraças é a coisa mais normal pra se fazer. Só não é mais do que beber - conclui ela, alfinetando o quase cidadão na sua frente.
Quando ela percebe o modo como havia falado com o pobre Criatura, com toques de mãos e carícias típicas de sua personagem, tenta se desculpar. Qualquer só sorri, beija a testa da menina mulher e diz, espalhando aquele aroma [a]típico pelo lugar:
- Cê tá errrad muça! Chorar é mai nomal sim, pusque cachaça - beija sua companheira - é a láguima dos perdido.
Toma um trago e segue seu caminho.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Tito e Pedrão

"Precisa-se de voluntários (homens) para auxiliar na construção do Congresso Regional de Enfermagem. Interessados procurar o C.A de enfermagem para maiores informações."

- Uia! Parece que esse aviso foi feito pra gente, Tito! - dizia Pedrão, com aquele seu sorriso de milhões de dentes na cara.

- Não sei... não sei...

- A gente descobre.

Lá vão os dois, atrás de "maiores informações".

O que impulsiona os homens atrás de tantos rabos de saia Tito não sabia; ou talvez fingisse não saber. Pedrão não se importava com isso; porque pensar sobre o objetivo de sua vida? A caça? É coisa demais.

- Bem... nós precisamos de homens para ajudar na organização do espaço físico de onde será o Congresso e depois os remanejaremos para equipes de apoio. Que vocês acham?

Aquela presidente de C.A era um pedaço de mal caminho, pensava Pedrão. Ai, meu Deus... trabalho extra, pensava Tito.

- Estamos dentro! - Pedrão

- Estamos? - Tito

- Sim, estamos.

E naquela noite, Tito não conseguiu dormir; suas costas doíam de tanto peso que carregara, mas Pedrão exultava de alegria na cama, pensando nos três dias de sacanagem que o esperavam; afastou um pouco a presidente do C.A de enfermagem, que ocupava muito espaço no colchão e foir dormir ofegante e feliz.

- Bem... Pedrão, você fica na equipe de recepção - a presidente deu uma piscadinha para ele, que retribuiu - e você Tito... bem... você vai pra cozinha. Pedrão disse que você lava pratos muito bem.

- Ótimo! - Pedrão não podia esconder a alegria de pensar no futuro próximo, onde estaria em contato com muitas e muitas mulheres.

Ele era o tipo de cara caçador. Sorriso de milhões de dentes, matador. Lábia venenosa, palavras penetrantes. Você não resiste a ele, mulher.

- Ótimo... - Pobre Tito.

Mas, afinal, ele pensou: o que eu, um cara tímido pra caralho, sem atributos chamativos, faria numa equipe de frente? Vamos a la cocina.

No outro dia todas aquelas caravanas de outros Estados chegavam, todas as moças (e aqueles poucos rapazes que fazem o curso) se acomodavam e o trabalho começava. Pedrão fazia a alegria da mulherada em seu tempo livre; e Tito ajudava a fazer sua comida. Todas reparavam em Pedrão; não tem como não reparar nele; elas não reparavam em Tito. A vida é assim mesmo: as vezes, ela não guarda nada de especial para alguns: nem um sorteio, nem um romance, nem um sexo casual e selvagem que será lembrado pelo resto dos seus dias.

E enquanto Tito talvez tinha esses pensamentos e Pedrão relaxava numa mesa de refeitório cheia de mulheres, a fila do jantar andava e um olhar, somente um olhar penetrante e lincético, olhava para o cara tímido que servia o arroz nos pratos. O olhar penetrou lá dentro, esquadrinhou, escolheu.

Pedrão era o primeiro a sair do refeitório; recepcionar e indicar era sua função principal: divertí-las em todos os momentos a secundária. Tito era o último, fadado a limpar tudo o que sobrava; ele até já se acostumara com aquela calma solidão. De repente, batidas na porta. Tito abre a porta, estranhando, e uma moça com os olhos mais negros e penetrantes que ele já vira olha direto pra ele e fala:

- Perdi meu pen-drive; acho que o deixei aqui.

"Sotaque carioca. Engraçadinho" - Tito Pensou.

- Ok, moça. Fica a vontade. Eu to acabando de limpar por aqui, enquanto isso você vai procurando.

E ela ficou lá, procurando seu pen-drive. Tito limpava, e ela se agachando pelos bancos; poses altamente insinuadoras. Será que... não não! Tito estava imaginando coisas, pra variar.

- Desisto, acho que deixei em outro canto - ela disse, sentando sobre uma mesa e cruzando um incrível par de coxas que ele realmente já tinha reparado.

- A gente anuncia no alto-falante amanhã.

- Você já vai fechar? Já acabou de limpar por aqui?

- Não não.

- Ah... posso ficar aqui, conversando com você? Não tem nada pra fazer onde eu to lá...

Tito naturalmente sabia que era mentira. Pois todas as noites do congresso eram regadas a festas, bebidas e danças; organizadas pela diretoria ou não. Mas, ele foi complacente.

Ele estava até gostando da companhia.

Quando acabou de limpar, ele sentou do seu lado, jogou um pouco de conversa fora. Ela jogou o corpo. Ela atacou; ela era uma caçadora, uma lince.

E ela descobriu um Tito diferente, enquanto rolavam pelo chão do refeitório fechado a chave. Não só um amante extremamente desejável; mas, numa conversa divertida e regada a algum álcool depois do sexo ela descobriu um artista, um trabalhador, um aventureiro viajante nas poucas horas vagas com o pouco dinheiro que tinha.

E eles se jogaram um pouco mais. Se "amaram" um pouco mais. Até cada um seguir seu caminho, após a porta do refeitório se fechar pelo lado de fora.

Meio-dia, Tito chega para o seu turno. Pedrão já está lá, olhos de ressaca, sorriso de felicidade e gozo na cara junto com aquela malandragem impecável.

Tito coloca seu avental e começa seu turno. Enquanto trabalha, sente um ar estranho ao seu redor: como se centenas de olhos o olhassem. Mulheres agradecem seu trabalho; mãos passam telefones enquanto pegam suavemente na sua na entrega de bandeijas. A fila parece dobrar de tamanho na hora das repetições. Essa mulherada enlouqueceu.

Pedrão ria da situação; pois Pedrão sabia a resposta de tudo:

Sim, Tito, a mulherada enlouqueceu;
por você.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

A Praga

Logo nasceu, escolheu o peito esquerdo; peito murcho de sua mãe.

"Esse já sabe o que é ruim"

Brincaram sem saber que as brincadeiras têm um fundo de verdade.

Teve a pior escola, a faculdade mais fraca, o emprego mais furreca, a mulher mais "rim". No dia de sua morte, choveu em um dia 80% do previsto para chover em um mês na cidade; inundação.

Todos correm para a torre da igreja. O caixão do homenzinho sai pelas portas arrancadas sendo levado pelas águas.

Indignado, seu filho mais velho comenta:

"Até o dia que papai escolhe pra morrer é podre"

O mais novo:

"Podre é saber que decidimos enterrá-lo no pior dia"

A dúvida, então, assola aqueles corações: a praga passa por sangue?

A moça do meio chega e acaba com a questão:

"Dia podre? Pior dia? Vocês não entenderam que o céu só chora por papai?"

Ela passa suas mãos na cabeça dos garotos. As mulheres têm esse incrível poder de fazer os homens se acalmarem nas horas mais tensas;

e as águas levam o caixão do pobre homem.

A cidade chora.

domingo, 17 de janeiro de 2010

As Origens (ou a Ruiva do Busão)

- Putameda...

Lá estava ele, olhando pra frente, vidro rachado, cabeça sangrando, de cara no muro. "Isso que dá tentar livrar a vida dos outros com péssimas opções", ele pensa. Seu último pensamento antes de tudo escurecer.

Tudo branco, lençol branco, pessoas de branco. Hospital. Ele se pergunta o que aconteceu, lembra do acidente, percebe a presença de alguém querida no quarto, sua mãe, e pergunta se o [maldito] pedestre está bem e fica aliviado com a resposta. Dois dias depois ele sai, feliz, serelepe, pimpão, pronto pra outra (que espera não aconteça); até perceber: onde está o seu carro querido?

- Ele vai ficar um mês marromeno, chapa.

"Grande", ele pensa. Volta pra casa, desconsolado. Pega a velha linha 3052 - Areia Vermelha/Marrocos , desconsolado. Vê aquela ruiva linda no banco ao lado, descon... não! Não! Nada de desconsolo! Seu instinto macho-alfa está lhe chamando para aquela caçada. Ele pula um lugar, e quando se prepara, ela puxa um livro velho. Ele olha, olha, olha. Perde a coragem. Livros o intimidam; desde criança.

Seu mundo está nos números, nas contas. Nada de palavras.

Ele é um adolescente. Acorda 5:30 da matina pra tocar a vida e pensa que acordaria uma hora mais tarde se estivesse com carro querido. Pensa que a vida devia ser uma música de Roberto Carlos: enquanto seu Cadillac está na oficina, ele devia ter o calhambeque, se apaixonar pelo calhambeque, viver o calhambeque. Mas a vida não é música, apesar da recíproca não ser verdadeira.

18:30 ele está voltando quebrado do trabalho. Cochila. Acorda. Cochila. Acorda. Cochila; acorda e vê: a ruiva lá de novo, agora no banco da frente. Ele vai, se aproxima, se aproxima... e percebe: lá está o maldito livro. Ele trava. Ele não gosta de livros: ele odeia livros.

2 x 0 para o livro. A ruiva é o prêmio.

Mas se passa uma semana, e nada dele vencer o livro. Duas. Três. Ele travou de vez. Não que ele antes daquela ruiva fosse o tal macho-alfa; ele não era. Tinha seus assomos, mas esses não venciam na maioria das vezes ante seus medos. Os livros eram um deles.

Ele perdeu. O carro estava pronto, e ele iria buscá-lo.

5:30 da manhã. O último dia dessa rotina antiga. O 5230, linha do sentido contrário o estava esperando, só que dessa vez, de manhãzinha o ar estava diferente. Ele esqueceu que era feriado, já quando estava no ônibus. Por isso aquele vazio, aquele ar estranho para um ônibus de periferia da capital. Só que, lá no meio, banco alto, estava ela... e o seu livro. Chapelão, canga, biquini: praia. Ele nem se anima mais (mente para si mesmo), vai andando, andando, andan... pimba! Um tombo! Uma mão no livro, um livro no ar, uma cara no chão.

- Cê tá bem?

- To-to-to! - machos-alfa sentem vergonha?

- Que bom!

Ela vai em direção ao livro, vai apanhá-lo... pulo do gato! Numa agilidade que não era a dele, ele pega o [maldito] livro antes dela; e ainda pega-o fechado. Ela agradece, sorri. Instintos "ON".

Ao lado dela:

- Tá indo pra praia?

- To sim; areia vermelha.

- Coincidência, tava indo pra lá!

- Pra praia? Com essa roupa?

- Não... pro bairro... mas, bem que eu podia dar uma passada na praia, tomar uma água de coco... se você me acompanhasse.

Sorri; milhões dentes. Sorri; os dentes pequeninos mais lindos do mundo.

- Pode ser.

Um dia de praia, uma água de coco, as boas e ótimas conversas que se poderiam ter tido se não fosse a existência daquele livro [maldito]. Mas, tudo acaba, o dia também. Ele vai pra casa, a ruiva desce no ponto dela, mas deu o telefone.

Ele desce em casa, o 3052 faz a curva. Um sorriso. Janta. Um sorriso. TV. Um sorriso. Cama.

E, antes de dormir: "Putameda! Esqueci meu carro!".

Ninguém pode negar o poder mágico que os coletivos têm.



quarta-feira, 8 de julho de 2009

Todo Tempo do Mundo

Não sabia fazer feliz a longo prazo. E essa era sua sina.

Quando lhe falou suas estórias, e quantas o deixaram, ela não lhe falou nada. Olhou nos seus olhos, como quem o descobria, lhe abraçou e disse "Tudo bem"; e se beijaram naquela saleta com cheiro de infância.

Ele nunca queria entender o que estava acontecendo. Vivia sempre no instantâneo, para si, e de ajudar os outros a recordar; de câmera na mão, registrava tudo dos outros, e nada de si. Pois era instantâneo. Suas histórias não se perdiam em livros escritos para a posteridade; mas se aqueciam nos ouvidos de quem queria ouví-las. E ela queria. E ele contava, com seu jeito de garoto malandro que não negava que era tal.

Ela queria tudo e adorava todos os momentos, como quem sempre guarda uma lembrança. Era o motivo da fotografia, a modelo, a paisagem. Também pudera: era um mulherão digna de ser registrada. Já ia bem com seus vinte e poucos; não tinha tudo na vida, mas tinha sorriso de quem pode conseguir tudo. Era assim, daquelas que adoram não demonstrar seu stress, olheiras e noites mal durmidas, mostrando sempre um sorriso na cara; pra ele.

Se conheceram para lá de lá e foram aqui os dias de expedientes mal cumpridos no trabalho dele, risos bestas dela e histórias que não acabavam mais dos dois.

Então, ela pegou o avião sem avisar.

E ele ficou a tirar fotos do céu, como quem quer registrar uma eternidade.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Lugares (não tão) Improváveis (2)

Banco de shopping center caro da cidade.
Dois melhores amigos, um menino e uma menina. Meninos e meninas de 20 anos que vão ao cinema juntos, para se divertir e assistir filme ruim. A menina pergunta O que ele disse de mim?.
Cruz e espada.

Ele só pode lhe responder a verdade, ele falou que Você é doida por mim.

Por favor, negue.
Não, eu não sei mentir.

Agora é só risada. Rir para não chorar (agora).

Nos lugares improváveis, coisas (não tão) improváveis (assim) acontecem.