quarta-feira, 8 de julho de 2009

Todo Tempo do Mundo

Não sabia fazer feliz a longo prazo. E essa era sua sina.

Quando lhe falou suas estórias, e quantas o deixaram, ela não lhe falou nada. Olhou nos seus olhos, como quem o descobria, lhe abraçou e disse "Tudo bem"; e se beijaram naquela saleta com cheiro de infância.

Ele nunca queria entender o que estava acontecendo. Vivia sempre no instantâneo, para si, e de ajudar os outros a recordar; de câmera na mão, registrava tudo dos outros, e nada de si. Pois era instantâneo. Suas histórias não se perdiam em livros escritos para a posteridade; mas se aqueciam nos ouvidos de quem queria ouví-las. E ela queria. E ele contava, com seu jeito de garoto malandro que não negava que era tal.

Ela queria tudo e adorava todos os momentos, como quem sempre guarda uma lembrança. Era o motivo da fotografia, a modelo, a paisagem. Também pudera: era um mulherão digna de ser registrada. Já ia bem com seus vinte e poucos; não tinha tudo na vida, mas tinha sorriso de quem pode conseguir tudo. Era assim, daquelas que adoram não demonstrar seu stress, olheiras e noites mal durmidas, mostrando sempre um sorriso na cara; pra ele.

Se conheceram para lá de lá e foram aqui os dias de expedientes mal cumpridos no trabalho dele, risos bestas dela e histórias que não acabavam mais dos dois.

Então, ela pegou o avião sem avisar.

E ele ficou a tirar fotos do céu, como quem quer registrar uma eternidade.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Entre livros e ilusões

[ Baseado em fardos (sur)reais ]

Ele se espriguiçava levando as mãos a nuca. Depois levantando os dois braços. Depois baixava o esquerdo e coçava a nuca, mantendo o direito levantado - o braço a ser mantido variava. E bocejava exageradamente pra finalizar seu ritual. Coça os olhos com um pouco de sono - já estava na biblioteca por algumas horas sem desgrudar os olhos da leitura. Olha para o nada e antes que baixe a cabeça por completo numa posição confortável para retornar ao seu "banquete", ele a viu subindo as escadas. Aquele mesmo cabelo castanho claro ondulado moldando o pequeno rosto branco decorado com dois olhos inquisitores sobre um pequeno nariz empinado próximo a pequna boca rosada - como se fosse um pequeno golpe de pincel finalizando a obra.

O pequeno corpo branco e macio - digo pequeno em altura, porque era um corpo largo, mas não gordo, era gostoso - passou por ele rápido, pisando o chão bem forte e negando a existência daquele corpo sentado bem próximo. Dobrou a esquerda e se perdeu entre as estantes de Literatura. Ele ficou louco, não a via desde Dezembro e já era quase Carnaval. Ele era facinado em olhar pra ela, nunca havia dado um "oi" sequer, mas se contentava em olhar, talvez algo a mais estragasse o encanto. Mas ele tomou coragem - nem tanta assim - e foi em direção aos livros de Literatura. Foi ao meio do corredo - ela estava no início - fingia procurar livros e foi se aproximando despreocupadamente. Então, disparou:

- Você cursa letras, né? - ele perguntou hesitante.

- Sim. - ela respondeu indiferente.

- Indica um bom livro?

- De que você gosta? - ela nem olhava pra ele.

- Dos que não me deixem parar de ler.

- Talvez eu não possa lhe ajudar. - ela disse num tom de fim de conversa.

Ele percebeu e retomou.

- Não? 

- Eu preciso saber do seu gosto. - ela respondeu impaciente, olhando pra ele e franzindo a testa.

- Pedi uma indicação, então confie no seu gosto. - falando firme.

- Eu confio. E ele me diz que eu não gosto de você. - quase mutilando com os olhos.

- É? Vejo que somos opostos, então. - um tom descontraído na voz.

- É? - voz indiferente, despreocupada procurando seus livros.

- Sim, eu gosto de você. Idiotamente. - lançando um olhar dissimulado.

- Olhe... Já disse que não posso lhe ajudar.

- Tá, já me contenta ler você.

- Eu sou uma nota. Você tem dez segundos...

Ela virou as costas e saiu. Ele manteve o seu sorriso de escárnio

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Lugares (não tão) Improváveis (2)

Banco de shopping center caro da cidade.
Dois melhores amigos, um menino e uma menina. Meninos e meninas de 20 anos que vão ao cinema juntos, para se divertir e assistir filme ruim. A menina pergunta O que ele disse de mim?.
Cruz e espada.

Ele só pode lhe responder a verdade, ele falou que Você é doida por mim.

Por favor, negue.
Não, eu não sei mentir.

Agora é só risada. Rir para não chorar (agora).

Nos lugares improváveis, coisas (não tão) improváveis (assim) acontecem.